quarta-feira, 15 de junho de 2016

Hurt

hoje meu coraçao sangra; tive amigos, que morreram ou me desentenderam, ou que matei por vida força. tive amores que, exaustos de pó e névoa, abandonaram-me esperando que eu sofresse as consequências de ter nascido "tão linda, você é tão linda..." e agora, silente e só, caminho na cidade que vejo da minha janela, a mesma cidade que me ritualizou e excomungou em seguida, a mesma cidade que me obrigou a voltar; eu, boneco articulado de carnes e pus. caminho na cidade, transito mundos muda e à procura.
hoje meu coração sangra: os amigos que fiz, que nos odiaram pelo quê só agora sei, saíram de mim vitoriosos; fundos canais de sugamento e duras cascas. os amores que tive, afogados de líquidos e contratempos, correram para o abrigo seguro das sociedades quentes e estáticas. e agora, imaterial, caminho pela cidade, caminho pela cidade fria, caminho pela cidade negativa, caminho pela cidade e enrijeço.
hoje meu coração sangra: aqueles amigos, que já são antiquíssimos, estão agora fantasiando-se aos sábados e pagando seu próprio formol, de modo que racional é tão mais simples e a vida escoa alucinada. aqueles amores, a quem dediquei uma vida inteira de substância translúcida, seguem alimentados e com pressa. e agora, simples e velha, tropeço pela cidade.
hoje meu coração sangra: amigos, que não possuo, podem ser qualquer passante desses milhares que configuram os veios saltados dos dias úteis. amores, que não possuo, o ápice da adiposidade dos tecidos urbanos. eu, que me abandono; o rodo cotidiano. sou levada pelos passos da cidade.
císmica:
hoje meu coração estanca
sou uma pedra rara
o novo aeón

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