terça-feira, 27 de agosto de 2013

sobre a descoberta do amor pela pedagogia intuitiva (relatório para o trabalho)

Primeiro dia: grandes expectativas. assumo mea culpa, fiquei de arregalado olho com a possibilidade de viver uma experiência transformadora no UNAS. Pelo UNAS. Ver que tinha uma gente inteira levantando tenda por cima das cabeças todas pela autonomia. Só (e isso e muito!) PELA AUTONOMIA!, quase bradavam na rádio (antes rádio pirata) instalada numa viela.

Caminhamos pela rua como se não percebêssemos o estranhamento do povo em ver tanta gente esquisita-e-junta. "Eita que gente assim a gente só vê quando sai daqui", as caras acusavam. Porque é de praxe a gente-esquisita instalada num lugar não ser tão esquisita neste próprio-lugar, neste lugar de origem. Nós, cujas caras os vizinhos desconheciam, estávamos mais pra alienígenas. Esta a primeira grande dificuldade: andar até a nossa nave como quem senta no portão de casa pra comer mixiricagem. Mas passou...Depois de muito, passou. Como as posteriores dificuldades. É isso que sinto, aliás: mais do que passaram as dificuldades, passamos por cima delas num tom de brincadeira. Se funcionou, não funcionou, blablá, se teve final feliz: deixamos com essa missão a novela.

Pois bem, nos encontros seguintes teve hora que eu pensei que fosse descambar e cair no chão pras crianças - tão ativas - pisarem logo na minha cabeça. Já o faziam de outro jeito mesmo! Só não descambei de fato porque, além de ter apoio demais dos colegas, pude por graça perceber que desse pisoteamento saia suco; eu não podia beber tudo sozinha! Quer dizer, eu precisava dar um jeito de botar tudo isso numa jarra e dividir com elas, com eles, conosco. E esse jeito era dado pelo tom genuinamente tropicália: (a parte boa do) jeitinho brasileiro. Conto um episódio que esclarece minha dissipada fala: no último encontro, enquanto grande parte das crianças pulava amarelinha por cima do nosso "divisor" e toda a aura, o meio-sol, a música malemolente (pontentíssima, aliás) e o rango, e aquele todo tom de descanso: ave! As meninas se estapeando. "Vagabunda, filha da puta!!! sua cachorra!!!, se enconstar ni mim eu te arrebento!".

Era uma garota quieta demais sendo atacada por todas as outras, que a acusavam de arrogância. Um xinga pra lá e pra cá e meu braço não dava conta de apartar os braços delas, os cabelos, as bocas que emancipavam vagabundas! necessidades de ninguém, absolutamente ninguém dizer a elas o que deve ser feito. Nem como, nem por onde, nem quando. Vi ali - não sei se de transe ou de desgosto - profunda necessidade de expressar os ímpetos sem censura. Era também como eu me sentia...Que fazer, que fazer, que fazer, a briga quase acaba e eu quase consigo separá-las, passados cinco segundos de febre e minha boca secava! Foi mesmo dramático. Superado o clímax da coisa toda, olhos chorosos e trêmula calmaria de quem espera alguma coisa que não o de sempre: elas olhavam pra mim, de novo, totalmente dispostas a evitar meu contato. Botei-as sentadas junto de onde eu alcançava e, meio triste, contei de um episódio pelo qual passei este ano. "fui discriminada na faculdade por conta de um email mal compreendido e agora ninguém de lá fala comigo", eu disse. Pescoços dispostos, olhos assustadoramente atentos. "por causa disso, houve uma discussão horrível. Eu sou muito atirada e costumo dizer as coisas bem na lata, e isso às vezes traz problemas. Então eu pensei que era melhor eu segurar a minha onda e não falar nada.". Responderam: "não, tia!!! Você ia ficar quieta?! Por que você não explicou o que aconteceu?!". E eu: "é, aquela foi a primeira coisa que pensei. Depois percebi que o jeito era eu tentar de novo. tentei, conversei com um aqui, outro lá...", olhei pra garota alvo das acusações, ela respondeu ao meu olhar com choro demais. Prossegui: "mas era preciso que todo mundo estivesse disposto também. Vocês sabem como é, a gente às vezes fica com alguém ou nem faz nada e já começam a chamar a gente de vagabunda, de dada, de safada, né. Nessas horas a gente se rebela e se consola com as amigas, né? Agora, imagina a minha situação lá na faculdade: eu já passava por esse tipo de coisa sendo mulher e agora ouvia sussuro alheio me xingando por causa de uma besteira, de um mal entendido". Uníssono: "verdade!!!". Silêncio. Todo mundo procurando onde a gente tinha chegado com aquilo (até eu, pra ser honesta); percebemos juntas.

A conversa seguiu como devia, cada hora uma pegava a jarra de nossos sucos pra servir o copo da outra e percebemos que se uma garota é quieta ou faladeira não necessariamente ela é metida. Nem é necessariamente nada que a gente imagine. É preciso entrar em contato. Jun-tas demos um passo primeiro pra toda uma caminhada. Elas, pros meus ouvidos atentos: "tia, a gente vai tentar conversar com as meninas mais novinhas e vai tentar também falar com a joci de novo...mas também se ela não quiser, tudo bem, deixa ela pra lá, né.". A joci parou de chorar, eu sentei pra primeiro dar graças à sororidade feminista, depois pra pensar que tudo parece luta de classe, depois pra expandir essas perenes pequenices e amar as possibilidades que a educação me apresenta.

Nesses aspectos, penso (na totalidade da minha falta de experiência em bienal) que a visita começa naquela secura da boca, no paradoxo do clímax-começo (!), frio na barriga e descompasso. Que conforme amarramos barbante entre entes (ou passamos por obras de arte), conforme desenhamos com fita a sombra da árvore no chão (ou prosseguimos arrebatados pelo pavilhão), conforme dançamos as próprias transes enfeitados com papel celofane (ou dançamos juntos a catarse de alguma cor), enfim, conforme todos esses conformes acontecem, uma experiência-visita toma corpo. Se faz presente.

Fosse toda essa odisséia uma visita - e era, eu diria que estou cansada e contente. de tanta energia gasta, dos pulos que inventei, das coisas que ouvi...e de a joci ter parado de chorar também. Sou gente!

Um comentário:

<_/´\_/`\__>~ tss