sábado, 22 de dezembro de 2012

encantamento: se a doença foi ópio, o suadouro da cura é alento.

há muito mais de doze meses não tenho subitamente um ataque de dedos e preciso não levantar da cama (somente esticar os braços) pra registrar - ou tentar - minunciosamente um sonho. é que tudo nele vai parecendo mesmo sonho, e todo mundo dentro dele sabe que é um sonho e de repente acordo porque é preciso saber dizer adeus e não só isso: porque a coisa aqui no não-sonho não está nem próxima de acabar. tem também que nos últimos tempos só pude me projetar pra lugares horrendos e cheios de sujeira, então muito me desanimava o suor sangrento de despertar sem amor; era difícil se ver tão pouco forte, tão sucetível a ponto de estar presa às amarras do centro da cidade. e se era isso! não tinha gracejo nenhum homem, não tinha ternura aquela morada. e isso já não importa porque hoje, justamente hoje, mudei a cama de lugar pra deitar sob outro teto, recupero-me lentamente de uma doença contagiosa que peguei no vento e penso que porque principalmente por esses dois aspectos consegui ir pra outro lugar, um que sempre visito em sonho, um monte alto...antes: eu estava num hospital, num quarto que eu dividia com mais duas mulheres. uma jovem e uma velha. e eu separava pares de tênis amarelos neuroticamente. tive medo de passar a noite naquele quarto cuja janela não abrigava paisagem, mas mais janelas ainda. era janela, depois janela, depois janela, depois janela...quando vi essa miragem um apagão e logo eu estava na estrada, em boas companhias, dentro de um ônibus. não me lembro muito bem do ônibus, só lembro de querer ficar na janela e derrubar coca-cola em todo mundo. sim! daí tivemos que parar pra trocar de roupas.
paramos em algum lugar que parecia inabitado, mas que agradável era! segundo a vista do alto de uma montanha, linda paisagem, ficavam algumas cabanas à direita, um gramado espaçoso à esquerda, e eu sabia que logo abaixo do terreno havia um mirante-rococó, cheio de curvas antiquíssimas e quase cor-de-rosa; tudo isso instalado de modo cuidadoso: que agradasse sempre as vistas sem nunca sucumbi-las a desordem, porque era tudo grande demais pra se pegar com a mão. as impossibilidades lógicas desse lugar são tão, mas tão específicas que é impossível eu me confundir. é nesse lugar que vou quando preciso resolver algum fim de ciclo, alguma pendência quase séria...é assim, um lugar específico que eu construí junto dos bons espíritos pra ter férias dos umbrais-contra-a-cegueira. pois bem, saindo da cabana onde eu pretendia trocar de roupa, muito contente, trepei numa corda pra brincar e pude ver, bem perto de mim (coisa que eu não havia notado até então), um conjunto de pessoas bonitas. no mundo terreno, comparo a boniteza desse povo à dos religiosos honestos e esclarecidos, dos crentes pacientes, porque esse povo, se você prestar a atenção devida, tem sempre a cara e corpo limpos, sem feridas. ah! - essas pessoas do sonho estavam sentadas olhando a paisagem. reconheci uma delas, uma mulher de longos e claros cabelos. ela abriu os olhos avermelhados de modo a sorrir: "você aqui!"; eu sorri de volta, tão feliz. conversamos qualquer coisa que o fato seguinte explica.
resolvi ficar ali.
na companhia de um homem gentil que segurava um cajado saí daquele lugar (que ficava na beira de uma rodovia pouco movimentada), atravessei a estrada e entramos num novo lugar. eu me sentia segura. o homem do cajado, cabelos enormes, ia na frente subindo pequenos montes de terra e separando o mato pra eu poder passar. ele fazia isso pra eu me sentir bem-vinda, e sem firulas neuróticas!, porque logo que chegamos ao nosso destino ninguém fez questão de me atribular o acanhamento, dando logo audiência ao nosso propósito maior, que era passar por uma espaçosíssima marquise abrindo e fechando portas falsas a fim de embasbacar uma manada de elefantes que passaria por ali naquele mesmo momento. eles me explicaram isso uma só vez, com bastante paciência e segurança. eles há muito tinham essa rotina. sabiam que eu ia conseguir fazer aquilo, porque era "um simples trabalho de manada, igualzinho ao dos elefantes". teríamos que abrir e fechar portas falsas de madeira, que ficavam instaladas naquele espaço de modo aleatório, conforme íamos adiante, sempre em frente, a fim de enfim ultrapassar os limites da marquise e chegar às vistas de uma nova miragem, que também visitei em sonho. agora vejo quão significativa é essa passagem...quão clara são as coisas se as abraçamos! fui abrindo e fechando portas meticulosamente, e todos fazíamos isso como aqueles peixes que nadam sincrônicos a fim de enganar os tubarões-demônio. dado momento, sucumbi à tremedeira de minhas mãos e quase fui pega por um elefante. o elefante me explicou os três jeitos pelos quais ele podia me machucar (com a tromba pelo meu lado, com a tromba pelo meu arremesso, fatalmente com a pata pela minha cabeça), mas algum anjo bom veio me salvar. prosseguimos.
eram elefantes enormes, elefantes fortes, cinzas...
acho que chegamos na paisagem. de qualquer maneira, no mundo dos sonhos temos a cabeça mais oca e tão, tão afiada que é possível ver as coisas adiante sem desconfiar nunca da intuição, que, no mundo dos sonhos, não exije filtros porque vem direto da fonte.

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