quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

cuspe matinal sobre o corinthians no mundial

nelson rodrigues que goze, entusiastas que gritem, o femen que mostre as tetas: eu teimo que existe limite. acordei hoje tão cedo e tava um sol tão lindo, uma riqueza enorme me tomou os olhos a ponto de ser necessário ouvir joão gilberto. e sem firulas, acontece que joão gilberto é uma grande frescura. e que fresquinho ficou o verão nessa manhã de dezembro!, é quase natal, é quase tudo tão doce...e na primeira bomba soltada, à vida força, me obrigaram a lembrar que hoje o corinthians estréia no mundial de clubes lá no japão. e numa puta que pariu dessas eu esperava que a tensão do momento fosse menos barulhenta. diz minha mãe a esse e outros respeitos: "você é uma ingênua". ela diz assim porque o sabe, porque nasci de sua barriga, mas os outros já podem dizer porque fiz questão de frizar a idiotice nas crenças tatuadas nos braços e coxas.
ingenuidade ultrapassada, cansada e finalmente renovada: valha-me deus, não posso ter sossego nem quando vocês vão pro japão? pra que estourar tanta bomba? minha cachorra já é velha e late feito um joão bobo, coitada. queria eu, no clímax do incômodo, poder gritar de volta, no mesmo volume, o tormento que o corinthians me causa. com isso dito, agora seria manchete do programa do ratinho que uma brasileira atípica não gosta de festas futebolísticas e até, não duvido da maldade do povo, que sou mal comida. não estou inventando nada. enquanto digito aqui - estranhando o mundo que acordado me parecia nobre, sonolento me parece efusivo e torpe - percebo que soltam as bombas, uma seguida da outra, sem descanso, porque são todos uns fanáticos. oh, que novidade! não são eles um bando de loucos insones? e que beleza tem nisto, por cristo? alguém com propriedade venha a mim e a nosso reino sonoro explicar porque é impossível ter mais de trinta minutos virgens nas manhãs universais. diriam, sobre isso, talvez, que é porque esse pouco tempo deve ser divino pra nos provocar tamanha elevação. então Deus é breve?
ele próprio, altíssimo, enorme, sem ouvidos, deve ter feito o sacrifício de ficar sem joão gilberto só pra ficar também sem fogos de artifício. afinal, uma coisa pela outra, a equação não bate...
se esse barulho todo for a exaltação do que não nos cabe, como o chapéu do capítulo dos chapéus que ironicamente é a extensão da cabeça do homem, ou como o sexo é a proximidade da morte em vias de uma continuação vigorosa da espécie, ou como o mate que habita a cuia de horácio é toda a e inteira a chave da existência de quem vaga pelas vias; bem, não me cabe dizer se de pronto teimei em odiar o barulho de bombas. assumo isso. assumo que não sou à favor da volta do manifesto futurista travestido de transgressão. num mundo desse, transgressão última seria o povo exatamente mudo e sem mãos a soltar bombas. não que eu, pessoalmente, valorize a idéia do "pão e circo" que professores marxistas ensinam nas histórias das escolas...isso é um saco. e a pessoa dentro de si mesma tem sensibilidades que leva ou não adiante. a educação importa, o acesso importa, a propagação de novos e inumeráveis caminhos importa. quero saber de fato de onde importamos esse mal hábito de tremer incalsavelmente o silêncio.
fazer força para declamar discuros progressistas, no caso das bombas de jogos de futebol, é uma contradição na medida em que, nesses mesmos discursos, se promove (vulgarmente falando) a evolução do homem. o homem que se enxerga minimamente vê a bobagem sem fim que é atormentar todo o seu envolto social com o barulho do seu descontrole.
cortinthianos, descontrolem-se como seus colegas de classe que apareceram na última promoção do CQC: comendo cocô familiar, cavando buracos, pulando de pontes. eu respeito sua escolha, profundamente respeito, mas exijo que vocês respeitem a minha de ignorar o acontecimento do dia tomando mate e fumando trevo. posso?
nesta colocação, aparece um paradoxo; estaria eu sendo ignorante? como esses falsos moralistas que dizem "respeito a sua escolha se respeitarem a minha", e justamente por não ser assim tão simples, eis o mundo? não. e o primeiro ponto é o fato nítido de a questão dos fogos barulhentos serem somente barulho sem grande potencial filosófico, logo, porque isso se trata de uma questão simples, contrária a questão maior do mundo (era simples os meus vizinhos respeitarem a minha escolha de não ouvir bombas e eu respeitar a deles de berrar loucamente quando houver gol). segundo ponto é o fato de a questão dos fogos barulhentos não ser uma questão política (reservo a mim esse direito estando ciente de esse debate ter potencial para desenrolar-se numa aula de sociologia. não aqui porque aqui é lugar nenhum), mas sim uma questão de comadres.
me admiro, ao contrário de baderneiros, por ser uma pessoa inteira que preza a manutenção de certas regras de convívio; ainda, me respeito por prezá-las em função da existência da arte, que pode suprir todas as transgressões e badernas necessárias sem atentar forçosamente à vida do "outro", forçando-nos, assim, a compreender o que se chama "outro" de maneira inteligente.
aqui não trato de uma utopia, dessas espirituais universalitas, mas sim do fato de eu ser muito bem comida!


2 comentários:

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