segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Milho de pipoca que não passa pelo fogo, continua a ser milho de pipoca para sempre.
Assim acontece com a gente.
As grandes transformações aco
ntecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo.
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos.
Pode ser o fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego e ficar pobre.
Pode ser o fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!
Sem fogo o sofrimento diminui.
Com isso, a possibilidade de transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer. Dentro da sua casca dura, fechada em si mesma, não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas, que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar.
Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito de serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura.
No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva.
Não vão dar alegria para ninguém.

(Rubem Alves)

3 comentários:

  1. penso amada que não devemos julgar o jeito de outro ser, se muda ou não muda, se acha seu jeito o melhor, acho o que importa é que ela saiba ser feliz com ele .. o que pensa?

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  2. liba, veja bem, você realmente acredita no que diz? sem recorrer ao abuso da especifidade dos exemplos, só a título de curiosidade, imagine uma mulher cujas qualidades são notadamente machistas. essa mulher, porque assim a ensinaram desde antes do Salvador, pensa "feliz" com esse jeito de pensar. é correto ser passivo com certos pontos de vista, impondo a humanidade uma lei de "tolerância total"? assim não há debate, muito menos melhoria. talvez você tenha se expressado mal e tenha querido dizer somente que é justo respeitar todas as opiniões. mas o que você disse de fato, alegando que a felicidade é finalidade independente dos meios, desqualifica até a melhoria na educação pública e o fim de regimes totalitários, percebe?
    penso que devemos todos trocar essa idéia e saber que a mudança age em tudo que vive e desvive, independente de nosso cego desejo de estabilidade. caso contrário, continuamos a maioria assim, atrofiados, pedaços de pau que aprenderam a andar...
    essa nova onda de tolerância cega que muita gente prega pensando ser bonita é na verdade passiva, mentirosa, pouco criativa e nada transformadora.

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  3. quando você coloca esses exemplos, concordo com você plenamente, o questionamento deve sim acontecer bem como a mudança, afinal muito do que temos intrinseco é condicionado por uma sociedade faz-de-conta, burra..
    Mas ao ler o texto não enxerguei as coisas que vc colocou, vi sim uma critica a pessoas comuns, dentro dos padrões da maioria, critica que fiz muitas vezes achando que todos deveriam viver de forma excentrica .. e é nessa interpretação do texto que coloco meu comentário, hoje aceito bem mais a moda, e a felicidade que há nela .. (não a futilidade, a ignorancia, preconceito, etc .. que existe tanto na moda quanto nos casos que fogem dela).

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<_/´\_/`\__>~ tss