quinta-feira, 6 de setembro de 2012

o ciclo do "temp(l)o": nele eu passo/ morre luiz felipe pondé

elisa se matou,
incendiaram meu patrimônio:
passei a pintar.

sofri demais,
não aguentei as marteladas na cabeça:
passei a costurar.

comprei jornal,
pondé gostou da chanel:
passei a desgostar.

pensei que "chega!", ia fazer só presente pros outros ficarem felizes,
um amigo, visitando meu ateliê e vendo as miçangas, perguntou se eu passei a fazer artesanato:
passei a fazer artesanato!

li as coisas,
não entendi o motivo das firulas:
passei a dançar.

pondé reclamou do aeroporto,
e eu não me incomodei porque acho lindo ver o povo besta (e nem frequento aeroportos):
passei a ser uma "idiota de deus".

eu vivo vendo gente bonita,
pondé só viu nessa vida uma menina:
num é que achei graça?

então fui feliz demais,
pondé acreditou na violência do homem-lobo,
e eu faço lobo de recheio pro meu bolo:

pondé disse finalmente que "arte pro bem" é arte menor e chata,
e que mulher gosta de ser puta...

passei a ser minúscula,
sou puta desde muito antes de o pondé ser feito nas coxas de sua santa mãe,
tenho um digníssimo pai,
ninguém acha meu artesanato chato além de pondé,
que faz das tripas coração pra achar e por não se lambuzar dos tantos possíveis, no esquecimento inevitavelmente cai.



*aqui no mar de absurdos, pondé morreu de raiva canina na madrugada de 6 de setembro de 2012. sua morte foi rápida, pouco poética e ovacionada por parte da comunidade hippie-paulistana. em uma homenagem ao enorme sacana estavam presentes grandes nomes da burguesia nacional e internacional, além da grande massa de pretos que foram impedidos de entrar no anfiteatro da FAAP porque precisava de nome na lista, né?. nenhum sertanejo pernambucano compareceu. pondé deixou em testamento o desejo de ser cremado e atirado nos canteiros de alguma rua silenciosa e provinciana nas zoropas, mas por impossibilidades lógicas (pondé tomou absinto feito um débil mental, então quando começaram a atear fogo no coitado começou um explode pra cá e pra lá que não sossegou nem com toalha morna) isso não ocorreu. com os pés, boca e mãos explodidos, foi enterrado nos confins cariocas ao lado do tumulo artesanal de Estamira, "Companheira!" de pondé e outro grande nome na chamada "ultra sensibilidade cultural u-topics", corrente filosófica sem mais nem porque fundada pelo falecido.  pondé foi colunista de uma folha de papel de três reais exatos, professor de gente universitária, ácido, quase intragável, irritante, inteligentíssimo, meio aveadado, e primeiro grande vencedor do prêmio "Burburinho do Ano" em 2013.

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