domingo, 9 de setembro de 2012

Cabreúva



cabreúva é muito mais amena. como explicar uma sidade que começa com s e termina com som de chupar? deitar logo cedo, que era um frio de rachar os beiços, na grama de frente pras montanhas de frente pra mim e pra nós onde. onde era grama, era frio e era sol. pode-se ouvir todo tipo de bicho, de onça à mosquito, pode-se abraçar as árvores e tinha lá uma amoreira de frente pro ateliê de pintar e tomar qualquer coisa como vinho ou tererê, dentro e fora do ateliê, e dava pra catar as amoras, junta-las todas no excesso de pano da camisa, fazendo como uma cumbuca, sentar na construção antiga de baixo do terreno-barranco, sentar e comer amoras. e tinha todo som possível e impossível, desde o silêncio até o infinito, e tantas premonições horrendas e tantas outras tão maravilhosamente dourada que era possível, se não houvesse cuidado, deixar-se tomar por elas ainda pequenas e passar a ser um idiota de deus. e tinha tanta coisa mais nesse lugar de magia que era nobre demais escolher, fugindo das lembranças do pó de rebeldia, sê-lo; ser o idiota de deus. o idiota que colhe as coisas pra comer e embebedar-se de nada além de...era nobre demais saber-se um grande imbecil por ter trazido de são paulo "a metafísica dos costumes" de kant e não ter passado nem do prefácio...melhor ainda é ter encontrado sem querer, no fundo da sacola de feira, antiga sacola de batatas baratas, um livro qualquer que falava de bonitezas e um filme cujo enredo era de soninho mas dava pra ver, se dava!, fala nele um homem raimundo (raimundo, xu? colabora aqui na memória da novela..) que era por demais digno. digníssimo e lindo demais, ele falava das coisas de seu melhor sujeito em volta, um homem poeta de nome manoel de barros, homem que odiei e amei na mesma medida. acho agora só lindo e invejável: lembrar-me dele e da cidade de absurdos me faz querer, como nunca, comprar o próprio ócio.
que é a vida senão sonho? ...eu sei, mas não quero dizer agora porque agora é momento de deitar-me sobre a doçura dessa lembrança...consigo sentir na língua e no quadril; na língua um gosto de trevo com mate e sonolência, no quadril um balanço besta como o de quem desce com sagacidade uma rampa enquanto se lembra sem saber que está lembrando de uma música swingada. era hora, ali, de swingar as coisas e tomar aquele generoso sol na cara...era hora de esquecer-se, de ser parte de nada. só ser sem sabê-lo, sorrir com as visitas que lá eram tão desejadas; visitas raras.
lá era bom demais cozinhar e comer depois, tinha peixe, feijão, laranja, açúcar, limão...comprávamos tranqueiras num mercado velho e pequeno porque tinha todo dia promoção..e era bom até fazer as unhas todo dia, escolher as cores a dedo enquanto se devorava uma barra de chocolate que tremia de frio e vinha pro estômago quentinho.
e dá-se, em condiçoes como estas, muito mais valor aos condicionantes e não a posteridade: onde era grama, era frio, tinha sol, eram lindas as montanhas, ateliê de duas cadeiras e enormes mesas, janelas. janelas humildes, pequenas e pesadas onde cabia misteriosamente uma quantidade de luz que nunca vi no resto do mundo, nesses meus mais de 10.000 anos vividos.


Um comentário:

  1. O nome do Raimundo não importa, até pq esse mundo lhe caiu muito bem.

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<_/´\_/`\__>~ tss