segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ubatuba

fonte: http://bespoleznyi.ru/photo/34-0-1247-3

Tem uns lugares que sempre visito secretamente.

Um texto chamado "roxo", uma poesia que me fizeram há muito tempo por aí, o centro da cidade vazio e chuvoso, a tristeza de um passante em prantos na estação da luz, a alegria do mendigo republicano que sempre vem pedir-me cigarros (este em especial me é risonho, de tão cara de pau! pede-me um cigarro e se me vê passando novamente pede de novo e assim, de novo, e de novo, e de novo...até acabar a minha paciência e o meu maço). tem também um sentimento nostálgico que nesses momentos sigilosos me vêm à mente: uma ubatuba chuvosa e noturna onde eu costumava ir quando eu era adolescente. "chuvosa e noturna" deve ecoar horrível em qualquer possível leitor, ainda mais nesse caso em que a frase mora num sujeito tão praiano que é ubatuba. pois bem, uma ubatuba de uma estrada só e caronas barulhentas; eu e minha antiga amiga perfumávamos os respectivos cangotes e íamos elegantes à caça do que devorar...e toda noite vinha aquela sede não sei de onde. uma sede, um ressecamento era ficar em casa prostrada. roubávamos o vinho que o pai delicadamente emprestava-nos e assim íamos: no salto. era uma ligação qualquer e pronto, "as carnes novas do pedaço virão ao nosso encontro"; quando na verdade a gente já era, naquele tempo, carne por demais usada. mas ali, na ubatuba chuvosa, era o que tinha de novidade pros meninos tão meninos e novinhos...e eu e a minha antiquíssima amiga lá ficávamos bebendo as babas. quando não, empanturravamo-nos de qualquer peixe bem preparado no restaurante do pai e íamos pra casa tomar ácido e fumar cigarros na companhia da noite tão longe de casa...a casa que aqui ficava, na sublime são paulo, cheia de ordens e de mães. lá em ubatuba podia chover que não era problema. as manhãs pouco aproveitávamos, vez em quando eu, que muito insistente sempre fui, lutava bravamente e conseguia acordar às nove, pegar umas ralezas pela casa, um romance safado e uns morangos mofados e enfiar tudo na bolsa suja de banco de praça; então, eu seguia pra praia descalça e curtia aquele ventinho delicioso de uma segunda feira em...ubatuba. chegando na praia, já dançando com a música dos fones de ouvido, sentada a bunda cansada na areia, olhava em volta, via nada, fumava um baseado e era aquilo: satisfação. uma puta felicidade...

Cheguei a dormir e cheguei a ser roubada pelo vento, porque ali não havia gente senão uns babacas de hotel de beira de praia. quando fui roubada, o vento levou uns trecos pouco importantes e isso não vem ao caso. o bom era dormir sem querer naquela praiona linda demais...e depois voltar pra casa e ver minha grande amiga lá na varanda sentada fumando um cigarro, me esperando na maior paz. dizia "pô amiga, que vacilo, que demora...já ia ligar pro pai", e eu dava uns beijos nela e ela parava de chateação. daí a gente se juntava e era bom.

A gente sentava na varanda e trocava uma ou outra idéia a respeito da montanha ou do vento sudoeste, a respeito daquele cara que a gente conheceu na outra noite...acabávamos sempre na mesma conclusão: éramos o bastante, uma pra outra e a outra pela uma. não havia encanação que superasse esse silêncio de varanda que nos era o alimento mais fino que já existiu. a noite íamos ver o pai lá no restaurante, e ele tava sempre lá, sorrisão aberto de ver as crias, uma biológica e a outra "não importa, filha..."; servia-nos o melhor rango que já houve ou haverá naquela ubatuba extinta. então nos despedíamos e o pai dizia "cuidado, filhas, tenham cuidado" e essa aprovação amorosa era o único necessário pra nossa alegria.

E íamos. as duas. chegávamos em casa na volta do restaurante e acendíamos as luzes. era, intuitivo, o despertar do cansaço morno do dia e o início de uma longa jornada. o estopim de uma arrumação muito criativa: nosso único intento nessa vida era ser bonita. e ponto. num momento passageiro, depois disso, cheguei a pensar na futilidade desse intento mas hoje, já com saudade, penso que nada houve de mais singelo nessa minha vida. pois bem, costumávamos levar pra lá uma caixa de som dessas muito altas e um aparelho de armazenar musica com coisa de tudo quanto é humor. sempre acabávamos ouvindo alguma coisa muito agitada e sedutora. corria o banho de cada uma, a porta jamais trancada, sempre escancarada, esperando a outra entrar e perguntar sobre uma blusa ou uma lingerie cuja beleza "eu senti saudade em são paulo"...voavam calcinhas, calças, casacos e tênis. como amávamos os tênis! coisa mais besta e bonita um tênis. e a cabeleira das duas era cuidada com um rigor de espantar qualquer expert: sabíamos tudo a respeito da outra, até do cabelo da outra. fazíamos intervalos entre a escolha de um bolero e de um rímel, e nesses intervalos dividíamos um cigarro peladas na varanda enquanto dançávamos contentes, falando pro alto o quanto amávamos aquela cidade...enfim, prontas. e a carona chegava e vinha uma postura tão firme em nós, como baixasse alguma grã-fina nos nossos dedos, íamos assim delineando nosso espaço, de pouco em pouco.

A música ia derrentendo o asfalto atrás de nós, e tomando uma proporção de descabimento e moleza em cada um que passava...éramos lindas. a noite começava, ou já havia, lá não tinha tempo. e era um drink, outro drink, daí começava um barulho borbulhante e uma fumaça densa pra lá e pra cá, vez em quando eu tava noutra roda e se eu percebesse a falta da minha amiga logo meus olhos abriam atentos, eu a avistava e a percebia fazendo o mesmo: pronto, já estavamos por perto, o riso alargava de novo e o pescoço afundava pra trás de alívio...a música retomava sua função e íamos indo, assim, saltitando no cais, na pista, na beira da praia, na estrada. boom! um assombro de acordar, já estavamos no carro de alguém cantando demais, chamando de sussurro o nome da outra e "amiga, você é linda...", e vinha uma piscina e mais festa, um drink, um brinde...à nós!

E o cansaço vinha de sopetão mas sempre tão misteriosamente nas duas ao mesmo tempo. quando era hora, quando meus olhos e os dela já mui negros, quando o pé dolorido de tanto tudo, aí era dada a hora de irmos embora. e não havia discussão: somente íamos de mãos. sempre dadas.
chegávamos em casa exaustas jurando amor pela outra e pelo novo affair, mas principalmente pela outra, e que cumplicidade!; sem delongas, satisfeitas, deitávamos como quem morre: o sono profundo, o descanso ia tomando-nos como aquela primeira música, como aquela primeira postura: estávamos em casa, não sãs mas salvas.

E dormíamos, duas princesas que éramos.

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