domingo, 29 de abril de 2012

nao peço nada, já tenho tudo e um conceito perdido. pinto, lavo, passo, cozinho; perco-me nos mundos e encontro-me deitada. do lado de. tenho um papel: a amada. pelas belezas da vida: eterna e sutilmente tocada. febre, muita febre. arrepios infinitos. deixei de fazer tudo, deixei de ter amigos; sou do mundo e do sublime término de seus empoeirados caminhos. poemas recolhidos não deviam ter títulos. nem eu, por amor de Deus, devia escrever. devia eu ser outra coisa além disso. só amor, só amor, só amor. só um ninho. mas não, fui nascer rouca e inteira. rouca e inteira. e amo. amo. amo.

hans hartung


O cego e a guitarra
Fernando Pessoa


(698)

O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

(699)

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.

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