segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Ida II



Pedro Pezte


A IDA II -

egocentrismos-espelho: sai poesia, já não sai desespero
ou
NarcisoLolium no meio do trigo
ou
sumiço
ou

nada disso


[também é uma tortuosa homenagem aos homens de bom-senso que me cercam:]

dói em mim como dói em mães de mártires
saber-se velha, oca e quase inexistente
enquanto suas crias, doces e inconsequentes
fazem-nos assolar e familiar-se à sombra do cárcere

as crias cadentes incomodam sutilmente a compostura de qualquer sensível
mas as maternidades meladas devastam-se chorosas antes de dar a primeira palmada;
ter crias vadias e coração vigoroso não permite arrematar as bordas:
precisa-se arrancar os próprios dentes mesmo estafado, à vida força,
cada dia em que se acorda e vê-se pela janela mais outro nascente ente astucioso

ah!, ser mátria de quem não o pediu pessoalmente
é afundar-se às cegas num negrume insano e doente.
assombrosas são as falas dos pobrezinhos, dos filhos que mentem
religiosos do templo de si próprios, penosos, acorrentados, de gente tão carentes...

terrível é ter de dar-lhes da liberdade a semente
e de início senti-los todos inertes
(ficam assim ao reconhecer dentro do não-ventre que são inférteis
e dentro do peito a languidez de um leviano doente)

afastam-se assim os filhos rebeldes
afastam-se pra sempre

são indolentes e, ignorantes, reticentes
extenuando a magreza do definhamento por prazer em viciar-se
(mas as mães sabem que o prazer está noutro lugar,
porque essas crias na verdade sentem na míngua força maior de pedir remédio ao primeiro que passar)


martírio sob licença poética:
(falando em vício,
viciam no pesar
nos cigarros, nas bebidas,
nas ordinárias praças dessa cidade sem saída...)



não joeiram o trigo do joio
nem o joio da jóia
nem a cor da clarabóia:
passeiam de óculos escuros de mãos dadas às jibóias
(choram com as mãos as crias sem história!)

amontoam lixos num canto
flores noutro
mas amontoar-se mesmo:
só em esquinas
(não canso!, junto das vadias)

o ruim é ser mãe de narciso e não ser exatamente uma sinfonia...
sou outra dentre tantas vadias
fico achando lindo ter um filho assim:
puríssima dourada melancolia

(dá até vontade de embebedar-se um dia
depois desmaiar e permanecer caída
saber como é sentir tanta raiva da vida
e aprender a gritar, chatíssimo assim!, nos ouvidos dos outros
teimando ensinar baboseiras aos que descansam sublimes
aos domingos, única missa livre

não sei ser nada senão contente)


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"desinflama, meu amor, do seu jeito é muita dor, vive...!
(...)
desencana, meu amor, tudo seu é muita dor, vive...!"




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esqueci o que eu queria falar...já faz tempo que deixei aqui esse texto cozinhando, careci d'uns novos respiros, querendo ver o mar e fui parar numa montanha sem nome que todo fim de tarde rasgava em mim uma beleza de abismo, tinha jeito de corpos deitados e etéreos; conforme a onda de luz lancinante ia indo e vindo a montanha ia junto...me era tudo lindo. acredito em Deus. entendo as dores e seus produtos-homens que se consomem, mas as montanhas me fizeram ver o mar e o mar ficou lá onde sempre esteve, à luz da lua que lumia o mundo-cabaré. além do silencio não há nada, de nada adianta nada, mas de que adiantaria proclamar contra o doce dessa vida? se só há essa...não digo isso querendo longitudes insistentes, querendo encolher-me num canto...sei que nada precisa de adianto. é só o universo, o universo e só e seus encantados encontros




as pinturas são boas pra eu devanear
é aquilo e pronto.
e talvez seja esse o intento, se é que há:
sonhar em preto e branco enquanto o canto devaneia...
entra em transe e despenteia

melancolia que devora
e a boca que devora não sacia
nem termina


muito menos alimenta minha santa barriga

Um comentário:

  1. você expressou um pouco minhas angústias e dúvidas em relação a ter ou não filhos. afinal, somos todos uns ingratinhos, ou umas vadias e narcisos.
    como eu queria ser açúcar no coração da minha mãe!

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<_/´\_/`\__>~ tss