domingo, 18 de março de 2012


 
"HISTÓRIA
INTERROMPIDA
GERTRUDES PEDE UM CONSELHO
OBSESSÃO
O DELÍRIO
A FUGA
MAIS DOIS BÊBEDOS
II
UM DIA A MENOS
A BELA E A FERA OU
A FERIDA GRANDE DEMAIS
I
História interrompida
Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que não desse a entender que seu maiordefeito consistia na sua tendência para a destruição. E por isso, dizia, alisando oscabelos negros como quem alisa o pelo macio e quente de um gatinho, por isso é quesua vida se resumia num monte de cacos: uns brilhantes, outros baços, uns alegres,outros como um "pedaço de hora perdida", sem significação, uns vermelhos ecompletos, outros brancos, mas já espedaçados. 
Eu, na verdade não sabia o que retrucar e lamentava não ter um gesto de reserva,como o seu, de alisar o cabelo, para sair da confusão. No entanto, para quem leu umpouco e pensou bastante nas noites de insônia, é relativamente fácil dizer qualquer coisaque pareça profunda. Eu lhe respondia que mesmo destruindo ele construía: pelo menosesse monte de cacos para onde olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo. Ele, semdúvida, também o achava, porque não respondia. Ficava muito triste, a olhar para o chãoe a alisar seu gatinho morno. 
Assim se passavam as horas. Às vezes eu mandava buscar uma xícara de café,que ele bebia com muito açúcar e gulosamente. E eu pensava um pensamento muitoengraçado: é que se achasse que andava a destruir tudo, não teria tanto gosto em bebercafé e não pediria mais. Uma leve suspeita de que W... era um artista, vinha-me àmente. Para desculpá-lo, respondia-me: destrói-se tudo em torno de si, mas a si próprio  
e aos desejos (nós temos um corpo) não se consegue destruir. Pura desculpa. 
Num dia de verão abri a janela de par em par. Pareceu-me que o jardim entrarana sala. Eu tinha vinte e dois anos e sentia a natureza em todas as fibras. Aquele diaestava lindo. Um sol mansinho, como se nascesse naquele instante, cobria as flores e arelva. Eram quatro horas da tarde. Ao redor o silêncio. 
Voltei-me para dentro, amolecida pela calma daqueles momentos. Queria dizer-lhe: - Parece-me que essa é a primeira das horas, mas que depois dela mais nenhuma seseguirá. 
Mentalmente ouvi-o responder: 
- Isso é apenas uma tendência sentimental indefinível, misturada à literatura damoda, muito subjetivista. Daí essa confusão de sentimentos, que não temverdadeiramente um conteúdo próprio, a não ser o seu estado psicológico, muitocomum em moças solteiras de sua idade... 
Tentei explicar-lhe, combatê-lo... Nenhum argumento. Voltei-me desolada, olheiseu rosto triste e ficamos calados. 
Foi então que pensei aquela coisa terrível: "Ou eu o destruo ou ele me destruirá". 
Era preciso evitar a todo custo que aquela tendência analista, que terminava pelaredução do mundo a míseros elementos quantitativos, me atingisse. Precisava reagir. Queria ver se o cinzento de suas palavras conseguia embaçar meus vinte e dois anos e aclara tarde de verão. Decidi-me, disposta a começar no mesmo momento a lutar. Voltei-me para ele, apoiei as mãos no parapeito da janela, entrefechei os olhos e sibilei: 
- Essa hora me parece a primeira das horas e também a última!! 
Silêncio. Lá fora, a brisa indiferente. 
Ele ergueu os olhos para mim, levantou a mão sonolenta e acariciou os cabelos.Depois pôs-se a riscar com a unha os desenhos em xadrez da toalha de mesa. 
Fechei os olhos, abandonei os braços ao longo do corpo. Meus lindos eluminosos vinte e dois anos... Mandei vir café e com muito açúcar. "




clarice lispector em "a bela e a fera", de 1979

Um comentário:

  1. Preciso compartilhar: Quando li o começo do texto, percebi que era da Clarice, por causa da indecisão dela com os títulos. (Lembra que comentei isso ontem?)

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