quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sobre cultivar-se à seco e sem adubo ou qualquer outro nome





.o desespero
assombraçoes me acompanham
eu tento desviar o olhar
e na tentativa caio de boca num vazio
onde eu nao quero de jeito nenhum mergulhar
nele
no espaço
que tem
em
mim

quebro os dentes
tento a sensaçao de morrer lentamente

todos tem:
a morte iminente

e é um desespero...


.a sofreguidão


na verdade
quero que alguém me ouça
pelo pulso
mas há um problema imenso:
ninguém no mundo de hoje tem ouvido pequeno


.o anseio

esssa é a última vez que ouvem falar de mim
ou que me ouvem falar
preciso de silêncio meditativo
preciso com urgência contemplar
esquecer que um dia li sidarta e invejei sua saga
esquecer dos hábitos literatos
e dos impostos não pagos
fugir das lamúrias
dos choros, das velas,
das militâncias
da insistência em viver em catacumba
e lembrar-me a todo tempo:
não trata-se de encontrar-me.
.a ânsia

sussuro: trata-se de esquecer-me por demorados momentos

(meus demônios espantei,
das correntes psicologizadas minha clarividência eu salvei
das terapias sistemáticas minha alma eu elevei
e das coisas do mundo...
dessas eu esqueci,
ignorei.

-deixei de rimar-

soube das pequenices destas
tão frágeis...efêmeras...submersas...)

bem,
aquilo já tentei
numa vida pela metade

quero me olhar de fora
deleitar-me na própria castidade:
ser inteira, honesta e fazer parte

do orgânico circular que é a arte
de viver sem afugentar-me

.a vasca
não quero ver filmes
nem teatro
nem conversas
nem livros, nem novelas
nem dizer que aquele sujeito é caricato
e que aquele outro é lindamente pacato

quero sumir em partículas transparentes
e sem cor também os pensamentos:
deixar de refletir sobre acontecimentos carimbados
e longe de projeções maquinais, entregar-me ao futuro impossível
e beber definitiva e orgânica as águas do passado.
ser sendo gente:
eis o meu retrato!

deixar de "tomar espaço"
ou respirar o tempo depois do abraço

quero abster-me de digerir acasos
(não adivinhá-los,
mas aceitá-los com seus intrasponíveis cascos)

viver como uma árvore.
que vive, sim, fundamentalmente sem laço enfeitado
mas é a única que conhece com verdade a poesia do enfado
(tem existência a partir conexões desprevinidas e descabeladas
inimagináveis, acidentais, eternizadas num suspiro de vida,
por si próprias consumidas e pelas outras docemente concebidas e calejadas)

(a poesia como sendo somente instrumento
de uma alma sujeita do mundo ao descaso)

não acometer-me ao erro que me consome aqui: adjetivar a vida.
andar a procura de uma pedra!,
ou de uma folha seca!,
ou de uma antiga forma, como era...aquele lixo de boca de palhaço!
viu!, na lembrança a teima,
na teima o aço,
no aço a corrosão,
na corrosão a poesia,
na poesia a lembrança,
na lembrança a teima....
na teima o cansaço.

! :

nada que passe do instante do dia
ou da eternidade de um fim de tarde!
.o padecimento
se não for assim, pra mim
as tardes viram cinzas de nervos
e as manhãs promessas descabidas de turquesas
então, se vem a chuva, eu chovo e enrijeço:
(o) passo a esperar desde cedo
as eternidades fugidias e as viagens finlandesas:
tudo um asco de maldades cortesãs
e drogas abastadas sobre a mesa

quero esquecer o tempo
e seus consequentes contratos
.o fastígio
eis o ser livre
sendo pena
e diáfano cálice




.o cício
(das feridas parto pro cósmico blues do caos e recolho seus cacos)

os cacos do mundo
que se desfez

e esqueceu-se de tudo
que o edificou
enquanto mundo

que és, vida?, murmuro
se tanto de ti falam...
quando seu poder de mistério em negrume vem afogar-me em noites reticentes
torna-te um mundo no espaço de um segundo segredo
e melodramaticamente humana, assumo: eis o infinito
quando para teorizar não há espaço



.o apuro
apagam-se as luzes
deita-se num colchão espalhado na terra
e eu aqui tentando lembrar as frases que me cabem com a aperto de um parto:
não consigo. me enxaguo...
a memória se esvai pelos meus ouvidos como um óleo sangrento que goteja em marte
e o óleo escorre com o esmero de sorrisos indecentes numa espanha escarlate

a(-)puro.

a lembrança vai casar com a dignidade real, abandonando-me.
fico contrariada mas respeito altitudes, elevações de consciência e nostalgias.
tudo que é trancafiado me esmorece a alma enebriando-me
nas caminhadas, a lembrança encontrou sentidos
mí(s)ticos, à parte
de mim e da minha encarnação púrpura-fogueada...

eis a confidência:
penso também no pra quê apegar-me a isso
tudo bem,
respiro
dois segundos na puridade do inculto

não demora,

paradoxos
nomenclaturas sem fim
dilemas,

O ÓCIO

é meu veneno,
meu contratempo,
e meu negócio

não sei viver senão pra isso
afundar-me em riso e deleitar-me em pranto
consentir pros outros algumas espécies de encanto.
enquanto isso meu lado de dentro vira-se do avesso sem público alvo
sem querer nada de matéria em troca:
"meu ente paciente nunca há de ficar calvo!",
grito. lamento.

querer nada além do imaterial da imensidão da palavra parideira
das cantigas escondidas
das roças inda não tingidas...



.a eminência parda
quero só uma palavra.

uma única palavra(-mundo)
que não acho,
que perco,
que esfolo,
que minto,
que procuro vorazmente
que não acho
que nao acho

que nao acho

que nao acho


que nao acho



que nao acho



que nao acho






que nao encontro:
assombraçoes me acompanham


.na sombra o manobrar-se de uma só palavra

Um comentário:

<_/´\_/`\__>~ tss