quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Caridade


I. desabafo por vontade, por ser livre, sou longe das iniquidades, sou inteira mesmo com a fome, durmo em paz quando não me comem, morro de vontade e sozinha me satisfaço, quero morrer, mas porque posso: morro sozinha! devagar, bubuiando,
morro sem laço!


tem coisa que é linda sem se saber
(como um espaço em branco pra escrever)

um menino aflito
porra louca, bandido
que é sozinho e faz que não sabe o porque

tem coisa que é divina e nao se assume azul:
se xinga, pede asmola
e se auto afirma constantemente num asco vermelho-chumbo
duma cor escura que nem coca cola

tem coisa que some da angústia
e vai pra longe
morar na rejeição
senta praça na cadeira da varanda,
não faz questão nem tem vontade de limpar as vidraças
sujas do pó do medo que veio de longe...
xiiiu...o medo vem da casa pintada de roxo-fumaça

é lindo saber-se linda,
saber-se inteira
sem precisar cortar-se em pedaços

quando assim me sinto, fico em silêncio,
atordoo sim meu bom-senso,
mas sou feliz:
a cadeira da varanda é balanço-esmeralda

(balancei sem saber-me bem-vinda na casa...)

o sem saber em si sem nada já é lindo
fica quieto, sente-se vivo

"como eram ternos e existentes meus romances de menino"
...
e as reticências deixam nos meninos um enorme vazio
cujo espaço arranca deles as risadas:
tão descabidas, tão desesperadas...

e as meninas, lindas e coloridas
assumidamente quase vazias
sofrem de amor do homem que cala.

uma lástima.

perdi-me em contratempos malditos
tendo dó da vida, dó do infinito,
borrei-me inteira tendo medo da fala,
agora, sozinha, exaspero-me, exalo-te, respiro,
ouço um "pára..."
os meninos friamente febris têm medo do sol
custava o que a eles um acalanto em dó menor?

esqueci,
os meninos pequenos
aconchegam-se nos ventosurbanos
esquecem do tempo
fazem como quem admira o subcultaneo (, que nada!)
olham violentos,
e sempre sozinhos corroem-se em pranto

esqueci,
os pequenos de mucambos,
como lhes tenho pena,
apaixonam-se com uma novata chegando
por não saber tocar um instrumento:
que dirá colher de uma mulher o canto

esqueci,
que os não serenos
podem estar acessíveis todo dia santo
mas não viajam,
eles vivem de enganos.
não tem sede de não saber,
"sei de tudo" e concluem afobados que a "vida é não viver"

fui fundo no nó:
tem doçura, sim, meninos, no não viver
como tem doçura efervescente no estar só.
ser livre não é estar prestes a morrer:
ser livre é sutilmente padecer,
e mesmo tendo os bagos da garganta,
levantar-se e ignorar da calça velha o sujo cós

eu nessa constante falação dos homens rasos
admito: sujei meu próprio prato,
mas emergi do caos palavreal
e desfiz minha fala imbecil e descomunal:
(eu dizia:) "perdi a minha luz"
(eu esquecia:) ela está tatuada em meu peito
eternamente, por direito!
direito do livre pensar...porque ignorar o resto não dá-se jeito pro merecido auto recesso

prender-se à esmo numa coisa sem gesto
viver de violência e de doce
cigarro, bebida, ego, cachaça, formiga:
trabalhar nisso não é defeito!
trabalhando nisso é que dá-se jeito
de viver na vida,
que saudade da violável filosofia!

que saudade eu tenho dos meus restos:
dos meus livros, dos amores, dos sonhos, do progresso
estou cansada de ler-me de olhos fechados
desci de dentro as escadas
e reli engolindo os papéis:
"naluz, faça de sua vida uma enorme estrada,
morra velha e satisfeita,
busque isso a vida inteira!,
tome banhos gelados, sucos adoçados,
sorria bastante e grite bem alto,
passeie se houver vontade, evite reclamar-se, faça caridade
durma na rua, olhe pra lua,
faça muito amor e ande descalça.."

agora faça-me o favor de olhar pro alto:
procure-se no espaço
porque em mim...você não há de encontrar mais nada

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