quarta-feira, 23 de março de 2011

Grito

hoje meu dia foi condenado à existir inteiramente em um bairro impuramente bonito e bem planejado de sampacaos
as pessoas são bonitas, andam tec tec tec com seus sapatinhos barulhentos
não parece que alisam o cabelo, têm o rosto e o corpo e o pescoço rigorosamente bem situados em cima do asfalto
a postura honrosa e convincente vem das aulas de yoga num puta centro hindu-sei-lá-oque na oscar freire, em frente àquele salão do corte salário-mínimo tesouro-milionário
os garçons te atendem com sede nos olhos e nos bolsos, coitados, "trabalhar toda noite deve ser tão duro!", "ainda bem que eu estudo!"
(e aqui no estômago eu sinto: "é foda...")
é, ainda bem, Seu Rei, ainda bem...
eu me esqueço, num repente, as mãos recém lambuzadas de argila rosa e passo a andar feito carangueijo
de ladinho, devagarinho, cuidando pra não trupicar e cair de boca no mármore de ouro dos mouros desse todo carnaval
entrei na fa"cool!" pra ver se arrumo um canto tosco pra encostar a cabeça que anda muito silenciosa e só querendo dormir;
os ventos noroeste do sudeste sopraram no meu ouvido "cabeça de nêgo, cabeça de nêgo" e eu, tonta, fui bater a cabeça neguinha no museu do navio dos impunes,
encontrei, então, uma excursão
crianças penteadas e muitíssimo bem educadas;
dum tal colégio sagrado coração do cristo loirinho alemãozinho hahaha...até parece
todas lá, enfileiradas, lindo ver crianças, como sabem de tudo...fui embora, cristo!
daí chega a segurança woman do distinto recinto me pedindo pra ficar:
"a bagunça te incomoda, senhora?"
de forma alguma, dona, só queria a molecada das quebradas barulhando aqui também, tamboreando na avenida do samba a saborear e não vender bala baratinha, mas tudo bem, deixa estar deixa tudo isso pra lá que eu vou ali fumar...
"fica na paz", abandonei numa hora de querer...

...pausa: "as ondas de carinho levaram as palavras mas eu sigo indo...as ondas são caminhos..."

eis que
fiquei louca num estalo quando lembrei do mendigo tomando pinga no gargalo
lá no centro da cidade que fede a mijo e à chá vagabundo
passo no largo e avisto o horizonte: concreto cheirando velho abandonado e as putas tristes dando sorrisinho de lado;
caminho, caminho, chego no point, lindo! essa galera toda tá pintando a cidade do rei!
eu não disse antes "deixa estar?" falei, falei...
esse povo todo não ia ficar quietinho, se for pra morrer, lembro daquela senhora retirante emigrante sofredora e..consciente! falando:
se for pra morrer a gente morre esperniando!


AXÉEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEÉ é!

gratidão pelo pão, meu preto véio!
gritaria coletiva quando houver covardia
generosidade infinita nas honestas romarias
e vamo entra de gaiato, pulo do gato!, nessa porra que não pára de chover patifaria.



foto: quadro de Marina Caram, "Menina Pobre e Menina Rica", sem data

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